O IMPÉRIO DO EFÊMERO
Tomei emprestado o nome do livro de Gilles Lipovetsky, que li recentemente, e que me alertou sobre as fórmulas consagradas que a mídia repete para obter o sucesso de um produto. Lipovetsky me fez repensar as telenovelas brasileiras e sobre como as vilãs têm ocupado um lugar privilegiado na preferência do público. A cada nova produção elas se apresentam mais atraentes, exuberantes, poderosas e más. E cada nova produção lá vem eles, os índices de audiência, sempre nas nuvens, tensos e palpitantes, quando essas personagens estão no ar. Mas, como assim, gostar das vilãs? Por que isso acontece, se já estamos tão fartos de maldades no mundo real?
É porque no simulacro das telenovelas, a perversidade das vilãs não ultrapassa a linha do imaginário. Elas trazem uma espécie de loucura que não incomoda, não machuca o “próximo real”. E mais: elas têm uma caractéristica que os mocinhos nunca conseguirão ter. A humanidade. Os mocinhos são perfeitos demais, bons demais. Sobrenaturais. As vilãs não, elas erram, lutam por um amor perdido, por um cargo, ou uma herança, e fazem o que for preciso para conseguí-lo, e conseguem sempre, nem que seja até o penúltimo capítulo. É um misto de divino e humano. Um semi-deus que se apresenta sob forma de um artista, reunindo tudo o que é desejado pela massa. Já dizia Lipovetsky, que nós consumimos no espetáculo o que a vida real nos recusa. Sexo porque estamos frustrados, aventura porque nada de palpitante agita nossas vidas. As vilãs oferecem ao público tudo aquilo que ele almeja ser é não é. Fortes, sedutoras, persistentes, e o que mais importa: vencedoras na grande maioria dos casos. E ao final de cada novela, o público aguarda sedento a justiça que espera para os vilões da vida real. E termina “sua” história feliz porque a justiça quase sempre se dá.
A mocinha, a vilã, o problema e o desfecho feliz. É na repetição incessante desse esqueleto que as telenovelas reproduzem os conceitos da vida burguesa, objeto de desejo da classe trabalhadora, que acaba por almejar ser o que de fato representa uma construção da própria mídia. E o que mais me preocupa é a alienação, na medida em que o público se apropria de um personagem e o adota como real, usando o esmalte daquela vilã, ou o cabelo da outra, um bigode estranho… E nós vamos perdendo nossa essência para o outro. E começamos a construir novos valores pela influência do outro, esquecendo-nos que este outro é apenas uma representação. Pode até parecer que eu detesto novela. Não, pelo contrário, mas que esta fique somente no viés do espetáculo!